O mundo sob meus olhos

O mundo sob meus olhos
A racionalidade não é tão obvia, a realidade é variante... E as ações?! São reflexos dos indivíduos, uma loucura consciente do mundo social, que cada vez mais se torna fundamentada por métodos. E para viver, desejo encontrar estratégias eficazes para os desafios do processo no ordinário....

2.11.2026

Entre o púlpito e o baile: agência feminina, música e política para além do binarismo

Na minha monografia de 2015, ao colocar em paralelo mulheres do funk e mulheres da música gospel, eu não buscava uma equivalência estética nem uma comparação moral. O gesto era outro, ainda intuitivo, mas já analítico: tensionar a ideia de que apenas certas formas de expressão feminina seriam legítimas como emancipação. O funk aparecia então como território consagrado da transgressão; o gospel, como espaço suspeito da reprodução conservadora. O que me interessava era justamente aquilo que escapava a essa oposição. O diálogo com os estudos sobre funk, em especial com a noção de "artista funk" (elaborada por Mylene Mizrahi) ajuda a recolocar essa comparação em outros termos. Sob a lente da abordagem de Mizrahi, uma artista funk não seria apenas intérprete de um gênero musical, mas uma "produtora de si", uma agente que articula corpo, estética, mercado, território e moralidades em contextos altamente situados. Sendo assim, sua agência não se dá fora das normas, mas na negociação constante com elas. O corpo não é apenas expressão: é ferramenta, capital e linguagem política. Essa formulação ilumina, por contraste e aproximação, o campo das mulheres na música gospel. Também ali encontramos artistas que produzem a si mesmas como figuras públicas, mobilizando narrativas de sofrimento, cura, maternidade, sexualidade, fé e autoridade.

A diferença não está na presença ou ausência de agência, mas "nos regimes morais e simbólicos que organizam essa agência". Enquanto no funk a sexualidade costuma operar como chave explícita de visibilidade, no gospel ela aparece frequentemente reordenada sob a gramática da família, da conversão e da cura. O que une esses campos não é uma suposta libertação comum, mas o fato de ambos operarem como "tecnologias de produção de mulheres públicas". Tanto a artista funk quanto a "artista gospel" constroem trajetórias que exigem domínio da cena, leitura do público, gestão da imagem e incorporação estratégica de expectativas sociais. Em ambos os casos, a música funciona como meio de acesso à esfera pública, especialmente para mulheres negras, periféricas ou oriundas de espaços historicamente deslegitimados. Essa aproximação nos obriga a rever uma premissa recorrente nos estudos de gênero: a de que a agência feminina só se realiza plenamente quando orientada por um horizonte explícito de ruptura.

Ao acompanhar mulheres evangélicas na música gospel, torna-se evidente que há formas de agência que não se anunciam como resistência, mas que operam como "rearranjos internos", deslocamentos graduais e produções alternativas de autoridade. Trata-se de uma agência situada, relacional, profundamente enraizada em contextos morais específicos. Nesse sentido, o paralelo com o funk não serve para hierarquizar expressões culturais, mas para "desestabilizar os critérios analíticos" com os quais julgamos o que conta como política, emancipação ou feminismo. O que aprendemos nesse ensinamento é que devemos levar a sério a artista funk sem reduzi-la a vítima ou heroína, assim como, no campo das mulheres na música gospel exige uma escuta que não parta da suspeita automática nem da adesão ingênua. O que está em jogo, em ambos os casos, é a disputa pela legitimidade de certos corpos femininos na cena pública. Corpos que cantam, pregam, dançam, oram, narram dores, desejos e prometem futuros possíveis. Corpos que produzem efeitos políticos mesmo quando não reivindicam esse nome. Comparar funk e gospel, portanto, não é apagar diferenças, mas reconhecer que "a política do gênero também se faz nos lugares onde menos se espera, inclusive sob a forma da fé, da música e da performance moral".

Talvez o desafio analítico hoje não seja decidir quais mulheres são emancipadas, mas compreender "como diferentes mulheres fabricam condições de fala e existência pública em contextos desiguais". Foi isso que eu começava a intuir em 2015. É isso que sigo investigando agora, com mais ferramentas, mas com a mesma aposta: levar a sério aquilo que desafia nossos próprios critérios de legitimidade.

O que eu pesquisava em 2015 (e por quê)

Estou numa etapa da construção da tese que me obriguei a revisitar meu trabalho de conclusão de curso da graduação. Dizem que é comum deixarmos de lado trabalhos imaturos, mas o que aprendi nessa viagem de volta ao tempo, é que vale a pena olharmos com atenção o que foi pensado e produzido com tanto esforço. Em 2015, ao concluir minha graduação em Ciências Sociais, eu investigava a atuação pública de mulheres evangélicas a partir de um caso específico: o ministério religioso e musical liderado por Fernanda Brum. À época, meu interesse não era evidente nem consensual dentro do campo acadêmico, tudo era muito intuitivo, bagunçado e bem alimentado pela orientadora que enxerava um possível rendimento. Mulheres evangélicas, música gospel, ação social e presença pública já apareciam com frequência, mas como objetos menores, moralizados ou tratados sob a chave da instrumentalização política e da falsa consciência.

Escolher esse tema significava, desde o início, habitar uma zona de desconforto analítico que precisava ser desbravado. Eu pesquisava mulheres religiosas porque já intuía que havia ali algo que escapava às explicações dominantes. Eu vim desse meio e necessitava de explicações mais honestas. A presença feminina no campo evangélico não me parecia apenas reprodutora de normas patriarcais, nem tampouco redutível a uma adesão acrítica ao conservadorismo. Havia mais ali, de onde eu vim vi florescer mulheres com dinamismos e manobras para fazerem suas escolhas, mesmo que limitadas, lideravam. Ouvi histórias reais de mulheres que com fé, sobreviveram e reiventaram modos para viver suas experiências ordinárias, sob o ideal da permanência e pertencimento em suas comunidades reigiosas. Quanto mais eu me inseria nesse tipo de perspectiva, mais questionava o reducionismo e o simplismo das avaliações que definiam esse campo. O que me chamava atenção era a complexidade dessas trajetórias: mulheres que falavam em nome da fé, da cura, da família e da moral, mas que também ocupavam palcos, mídias, redes, espaços públicos e arenas políticas, muitas vezes com mais eficácia do que atores seculares.

Naquele momento, meu esforço foi deslocar a pergunta clássica; “por que essas mulheres aderem?” para outra mais incômoda: como essas mulheres atuam? Como constroem autoridade? Como performam liderança? Como produzem sentidos públicos a partir da religião? Essa mudança de eixo, que hoje reconheço como central na minha trajetória, já estava ali de forma embrionária. O trabalho de campo, feito em shows, eventos públicos e celebrações religiosas, revelou algo que se tornaria um fio condutor da minha pesquisa ao longo dos anos: a religião como mediação da vida social e política, especialmente nas margens do Estado. Ao observar eventos gospel promovidos ou apoiados pelo poder público, percebi que não se tratava apenas de fé ou entretenimento, mas de verdadeiros rituais de pacificação, ordenamento moral e produção de pertencimento coletivo. A religião operava onde o Estado falhava (ou escolhia não operar) oferecendo sentido, escuta, promessa e reconhecimento. Ao mesmo tempo, eu já me inquietava com os limites de um feminismo universalizante para compreender essas experiências. Em diálogo com teorias da performatividade e com leituras sobre feminismos não ocidentais, especialmente o feminismo islâmico, comecei a elaborar uma pergunta que ainda me acompanha: existem formas de emancipação que não passam pela ruptura com a tradição, mas pela sua reinterpretação?

Em 2015, essa pergunta não estava totalmente formulada, mas já orientava minhas escolhas teóricas e empíricas. O que eu pesquisava naquele momento, olhando hoje, não era apenas um ministério religioso ou uma cantora gospel. Eu já pesquisava a disputa pela esfera pública. Pesquisava como gênero, religião e política se entrelaçam na produção de autoridade feminina. Pesquisava, ainda sem nomear assim, a fabricação de sujeitos públicos em contextos religiosos, um tema que atravessaria toda a minha produção posterior. Se naquela época o trabalho parecia excessivamente ambicioso, hoje entendo que ele expressava menos uma falta de rigor e mais uma recusa precoce às explicações simplificadoras. A monografia de 2015 não foi um ponto fora da curva, mas o primeiro gesto de uma trajetória intelectual que segue insistindo na mesma aposta: levar a sério mulheres conservadoras sem concordar com elas; compreender práticas religiosas sem reduzi-las; e pensar a política para além dos seus formatos clássicos. O que mudou desde então foi o refinamento teórico, a maturidade metodológica, mas ainda falta a capacidade de escolher melhor os recortes (rs!).
Permanece, com expressividade, uma pergunta fundamental: quem são essas mulheres quando falam em público e o que o mundo social revela quando as escutamos com atenção analítica?

12.01.2015

Das escolhas que te moldam ...

... somos seres caminhates, seguimos por estradas logínquas, as escolhas nos transformam, e com elas nos moldamos pagando algum tipo de preço [...]
aos que amam / aos que amamos, escolhemos guardar [!], mesmo que despetaladas, pois nunca são efêmeras e sempre pedem um tipo de recomeço ...



~ com Meireles e Ruiz ~

4.07.2015

Lutar contra a Cultura do Estupro


"Eu luto contra a Cultura do Estupro porque
quando disse ao meu ex namorado sobre o meu estupro
ele me "perdoou"
Eu luto contra a Cultura do Estupro porque
Eu vi minha irmãzinha amadurecer do dia pra noite
conforme ela me contava sobre como sua melhor amiga foi molestada


Eu luto contra a Cultura do Estupro porque
Meu amigo mais próximo foi abusado quando criança
e não contou a ninguem a não ser pra mim
E levou a ele 13 anos para se abrir.

Eu luto contra a Cultura do Estupro porque
Minhas amigas admitem que seus parceiros tranzem com elas quando elas não querem
E ai riem como se fosse "coisa de homem"

Eu luto contra a Cultura do Estupro porque
dizer que vc está estuprando alguem é perfeitamente aceitável
se estiver jogando video game

Eu luto contra a Cultura do Estupro porque
os homens falam que ficam ofendidos quando as mulheres na frente deles começam a andar mais rápido
como se seu ego fosse mais importante que nossa segurança

Eu luto contra a Cultura do Estupro porque
se eu digo a alguem que sua piadinha sobre estupro não é engraçada
Dizem que eu levo tudo muito a sério (como se fosse só uma brincadeirinha)

Eu luto contra a Cultura do Estupro porque
Ele não vai acabar
a não ser que a gente acabe com ele"













[Via - lomticks-of-toast / Tradução: Isis Barcellos]

2.23.2015

Sociedade do consumo

E por onde você pensa que anda sua imaginação ao ir imaginando suas mais complexas articulações de desejo...
Sociedade do consumo, sociedade dos anseios, sociedade que quer mais sem saber o que lhe é essencial... Essencial de essência, ou de fundamental? Fundamental ao fundamentalismo pré concebido?

Quando nos vemos afirmando variações das provas encontradas por Freud, onde a sexualidade é a base dos estímulos interacionais, nós podemos nesse momento perceber o quão cru está esse saber... Entre o cru e o cozido, convenhamos, variar também é saboroso...

Hímeros, Colóquio de Arte e Psicanálise: participar desse evento além de ter me fornecido forças, me permitiu entender que nem sempre é preciso racionalizar a compreensão das coisas... Podemos sim sentir e desejar, mas devemos também saber que o que nos molda ao redor, essa tal estrutura, sim ela... é extremamente relevante quando se quer atuar de forma deliberada de modelar, ou melhor, na forma da topologia humana... A tragédia, o drama, o emotivo... A arte, a música...

A vida é construída de barreiras, não sendo preciso muda-las de lugar,..., contorna-las ou destruí-las é só um desprendimento da linha cronológica do fluxo desorientado desse absurdo existencial...

Qual é o desejo que te consome?!
[Abril-2013]

2.22.2015

Musicando








O ser é um SIM vibrante com as harmonias cósmicas...

Auto-amado

Um dia me perguntei o porque de alguns questionamentos sobre o viver...
Me deparei com o movimento do sentir...

Outro dia me perguntei sobre o amar...
Encontrei frente a frente o pesar...

Passando por um ciclo conturbado, indaguei a felicidade...
Recebi a visita personificada de uma boa idade...

Esquadrinhar a existência é perceber o que se deve absorver daquilo que se vê.

Sabe..., não se pode esperar um retorno das ações aleatórias, seria simples demais...
A arte do viver está na espera do inesperado, na procura do incontestado...

Amar o ser amado.