Nas cidades brasileiras, a fé não se expressa apenas em crenças ou práticas
espirituais privadas. Ela se materializa em corpos, imagens, performances
públicas e trajetórias de mulheres que ocupam igrejas, eventos, redes sociais,
equipamentos públicos e espaços de decisão política. Olhar para essas mulheres
exige abandonar leituras simplificadoras que as tratam apenas como vítimas da
religião ou como incoerentes diante de agendas feministas hegemônicas.
A sociologia urbana nos ajuda a compreender que essas mulheres não existem fora
da cidade, pois elas são profundamente moldadas por ela.
São mulheres que vivem em territórios marcados por desigualdade,
precariedade de serviços públicos, sobrecarga de trabalho reprodutivo e
instabilidade econômica. É nesse contexto
que a fé se torna linguagem, recurso e estratégia de vida.
A Bíblia já reconhecia a centralidade do trabalho feminino ao afirmar: “Mulher
virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis.” (Provérbios
31:10).
Virtude, nesse sentido, não fala sobre passividade. Fala sobre a capacidade de sustentar a
vida cotidiana em condições adversas.
Nas igrejas evangélicas, especialmente nas periferias urbanas, as mulheres são
maioria. São elas que mantêm a frequência, organizam eventos, mobilizam redes de
cuidado, participam de campanhas, articulam ações sociais e traduzem discursos
religiosos em práticas concretas. A fé, na cidade, passa pelos corpos femininos.
Essa centralidade não é apenas espiritual, mas urbana. São mulheres que
conciliam trabalho precário, deslocamentos longos, cuidado com filhos e
familiares, participação religiosa e, cada vez mais, atuação pública. A cidade
exige delas uma gestão permanente da sobrevivência — e a fé aparece como recurso
simbólico e prático para sustentar essa rotina exaustiva.
Judith Butler propõe o conceito de precariedade para mostrar como certas vidas
são mais expostas ao risco, à instabilidade e à violência. Mulheres periféricas
vivem uma precariedade acumulada: econômica, emocional, urbana e simbólica.
Ainda assim, são frequentemente responsabilizadas pelo “sucesso” ou “fracasso”
da família, da fé e da moral doméstica.
Um dos elementos centrais observados em minhas pesquisas recentes sobre mulheres
evangélicas conservadoras é a construção de uma estética política própria. Essa
estética não se limita à aparência, mas envolve modos de falar, vestir, se
apresentar em público, usar redes sociais, ocupar palcos e espaços
institucionais.
A estética política feminina conservadora articula: Modéstia e autoridade moral;
Linguagem emocional e discurso técnico; Fé, cuidado e competência pública. Essas
mulheres constroem legitimidade não apenas por meio de cargos formais, mas por
uma performance que combina maternidade, religiosidade, disciplina e compromisso
com valores morais. Trata-se de uma forma específica de produzir poder simbólico
na cidade.
Saba Mahmood nos ajuda a compreender que agência não se manifesta apenas como
resistência aberta ou ruptura com normas. Há agência também na incorporação
disciplinada de valores, quando essa incorporação permite ocupar espaços,
produzir reconhecimento e agir no mundo. Levar essas mulheres a sério
analiticamente significa reconhecê-las como sujeitas políticas, mesmo quando
discordamos de suas agendas. Uma pergunta atravessa esse debate: estamos diante
de empoderamento feminino ou de uma redistribuição desigual de
responsabilidades?
Por um lado, essas mulheres ampliam sua visibilidade pública, ocupam cargos,
lideram projetos e influenciam políticas. Por outro, continuam sendo as
principais responsáveis pelo cuidado, pela moral familiar e pela mediação entre
Estado, igreja e comunidade. A cidade neoliberal se apoia fortemente nesse
trabalho feminino invisível. Ao mesmo tempo em que transfere às mulheres a tarefa
de “dar conta” da vida — emocional, espiritual e
materialmente. A fé, nesse contexto, pode funcionar tanto como fonte de força
quanto como mecanismo de naturalização da sobrecarga.
A presença crescente de atores religiosos na política brasileira não pode ser
compreendida apenas como uma “invasão da fé” na esfera pública. Trata-se, antes,
de um rearranjo urbano e político em que igrejas e lideranças religiosas ocupam
espaços deixados por um Estado fragilizado e por uma democracia marcada por
desigualdades profundas. A cidade é o principal palco desse processo. É nela que
pautas morais se transformam em projetos políticos, que discursos religiosos
ganham materialidade institucional e que demandas sociais são traduzidas em
linguagem de fé.
O profeta Isaías adverte: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal” (Isaías
5:20).
A cidade torna-se um espaço de pedagogia moral contínua: ensina como viver, como
criar filhos, como organizar a família, como lidar com o sofrimento. Igrejas e
lideranças religiosas participam ativamente dessa pedagogia urbana.
A Bíblia, no entanto, convoca: “Abre a tua boca a favor do mudo,
pelo direito de todos os desamparados” (Provérbios 31:8).
Defender os desamparados exige mais do que julgamentos morais. Exige enfrentar
as estruturas que produzem o desamparo. Levar a fé a sério não significa
suspender a crítica. Levar a cidade a sério significa reconhecer que sofrimento,
desigualdade e conflito não são apenas questões espirituais, mas políticas e
urbanas. As mulheres evangélicas conservadoras não são figuras marginais desse
processo. Elas estão no centro das disputas contemporâneas sobre moralidade,
poder e vida pública. Compreendê-las exige uma sociologia que não despreze a fé,
mas que também não a transforme em explicação totalizante.
