O mundo sob meus olhos

O mundo sob meus olhos
A racionalidade não é tão obvia, a realidade é variante... E as ações?! São reflexos dos indivíduos, uma loucura consciente do mundo social, que cada vez mais se torna fundamentada por métodos. E para viver, desejo encontrar estratégias eficazes para os desafios do processo no ordinário....

2.12.2026

Fé, gênero e poder na cidade contemporânea

Nas cidades brasileiras, a fé não se expressa apenas em crenças ou práticas espirituais privadas. Ela se materializa em corpos, imagens, performances públicas e trajetórias de mulheres que ocupam igrejas, eventos, redes sociais, equipamentos públicos e espaços de decisão política. Olhar para essas mulheres exige abandonar leituras simplificadoras que as tratam apenas como vítimas da religião ou como incoerentes diante de agendas feministas hegemônicas.

A sociologia urbana nos ajuda a compreender que essas mulheres não existem fora da cidade, pois elas são profundamente moldadas por ela. São mulheres que vivem em territórios marcados por desigualdade, precariedade de serviços públicos, sobrecarga de trabalho reprodutivo e instabilidade econômica. É nesse contexto que a fé se torna linguagem, recurso e estratégia de vida.

A Bíblia já reconhecia a centralidade do trabalho feminino ao afirmar: “Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis.” (Provérbios 31:10). Virtude, nesse sentido, não fala sobre passividade. Fala sobre a capacidade de sustentar a vida cotidiana em condições adversas.

Nas igrejas evangélicas, especialmente nas periferias urbanas, as mulheres são maioria. São elas que mantêm a frequência, organizam eventos, mobilizam redes de cuidado, participam de campanhas, articulam ações sociais e traduzem discursos religiosos em práticas concretas. A fé, na cidade, passa pelos corpos femininos.

Essa centralidade não é apenas espiritual, mas urbana. São mulheres que conciliam trabalho precário, deslocamentos longos, cuidado com filhos e familiares, participação religiosa e, cada vez mais, atuação pública. A cidade exige delas uma gestão permanente da sobrevivência — e a fé aparece como recurso simbólico e prático para sustentar essa rotina exaustiva.

Judith Butler propõe o conceito de precariedade para mostrar como certas vidas são mais expostas ao risco, à instabilidade e à violência. Mulheres periféricas vivem uma precariedade acumulada: econômica, emocional, urbana e simbólica. Ainda assim, são frequentemente responsabilizadas pelo “sucesso” ou “fracasso” da família, da fé e da moral doméstica.

Um dos elementos centrais observados em minhas pesquisas recentes sobre mulheres evangélicas conservadoras é a construção de uma estética política própria. Essa estética não se limita à aparência, mas envolve modos de falar, vestir, se apresentar em público, usar redes sociais, ocupar palcos e espaços institucionais.

A estética política feminina conservadora articula: Modéstia e autoridade moral; Linguagem emocional e discurso técnico; Fé, cuidado e competência pública. Essas mulheres constroem legitimidade não apenas por meio de cargos formais, mas por uma performance que combina maternidade, religiosidade, disciplina e compromisso com valores morais. Trata-se de uma forma específica de produzir poder simbólico na cidade.

Saba Mahmood nos ajuda a compreender que agência não se manifesta apenas como resistência aberta ou ruptura com normas. Há agência também na incorporação disciplinada de valores, quando essa incorporação permite ocupar espaços, produzir reconhecimento e agir no mundo. Levar essas mulheres a sério analiticamente significa reconhecê-las como sujeitas políticas, mesmo quando discordamos de suas agendas. Uma pergunta atravessa esse debate: estamos diante de empoderamento feminino ou de uma redistribuição desigual de responsabilidades?

Por um lado, essas mulheres ampliam sua visibilidade pública, ocupam cargos, lideram projetos e influenciam políticas. Por outro, continuam sendo as principais responsáveis pelo cuidado, pela moral familiar e pela mediação entre Estado, igreja e comunidade. A cidade neoliberal se apoia fortemente nesse trabalho feminino invisível. Ao mesmo tempo em que transfere às mulheres a tarefa de “dar conta” da vida — emocional, espiritual e materialmente. A fé, nesse contexto, pode funcionar tanto como fonte de força quanto como mecanismo de naturalização da sobrecarga.

A presença crescente de atores religiosos na política brasileira não pode ser compreendida apenas como uma “invasão da fé” na esfera pública. Trata-se, antes, de um rearranjo urbano e político em que igrejas e lideranças religiosas ocupam espaços deixados por um Estado fragilizado e por uma democracia marcada por desigualdades profundas. A cidade é o principal palco desse processo. É nela que pautas morais se transformam em projetos políticos, que discursos religiosos ganham materialidade institucional e que demandas sociais são traduzidas em linguagem de fé.

O profeta Isaías adverte: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal” (Isaías 5:20).

A cidade torna-se um espaço de pedagogia moral contínua: ensina como viver, como criar filhos, como organizar a família, como lidar com o sofrimento. Igrejas e lideranças religiosas participam ativamente dessa pedagogia urbana.

A Bíblia, no entanto, convoca: “Abre a tua boca a favor do mudo, pelo direito de todos os desamparados” (Provérbios 31:8).

Defender os desamparados exige mais do que julgamentos morais. Exige enfrentar as estruturas que produzem o desamparo. Levar a fé a sério não significa suspender a crítica. Levar a cidade a sério significa reconhecer que sofrimento, desigualdade e conflito não são apenas questões espirituais, mas políticas e urbanas. As mulheres evangélicas conservadoras não são figuras marginais desse processo. Elas estão no centro das disputas contemporâneas sobre moralidade, poder e vida pública. Compreendê-las exige uma sociologia que não despreze a fé, mas que também não a transforme em explicação totalizante.