Estou numa etapa da construção da tese que me obriguei a revisitar meu trabalho
de conclusão de curso da graduação. Dizem que é comum deixarmos de lado
trabalhos imaturos, mas o que aprendi nessa viagem de volta ao tempo, é que vale
a pena olharmos com atenção o que foi pensado e produzido com tanto esforço.
Em 2015, ao concluir minha graduação em Ciências Sociais, eu investigava a atuação
pública de mulheres evangélicas a partir de um caso específico: o ministério
religioso e musical liderado por Fernanda Brum. À época, meu interesse não era
evidente nem consensual dentro do campo acadêmico, tudo era muito intuitivo,
bagunçado e bem alimentado pela orientadora que enxerava um possível rendimento.
Mulheres evangélicas, música gospel, ação social e presença pública já apareciam com
frequência, mas como objetos menores, moralizados ou tratados sob a chave da
instrumentalização política e da falsa consciência.
Escolher esse tema significava, desde o início, habitar uma zona de desconforto analítico que
precisava ser desbravado. Eu pesquisava mulheres religiosas porque já intuía que
havia ali algo que escapava às explicações dominantes. Eu vim desse meio e
necessitava de explicações mais honestas. A presença feminina no campo
evangélico não me parecia apenas reprodutora de normas patriarcais, nem tampouco
redutível a uma adesão acrítica ao conservadorismo. Havia mais ali, de onde eu
vim vi florescer mulheres com dinamismos e manobras para fazerem suas escolhas,
mesmo que limitadas, lideravam. Ouvi histórias reais de mulheres que com fé, sobreviveram e
reiventaram modos para viver suas experiências ordinárias, sob o ideal da
permanência e pertencimento em suas comunidades reigiosas. Quanto mais eu me
inseria nesse tipo de perspectiva, mais questionava o reducionismo e o simplismo
das avaliações que definiam esse campo. O que me chamava atenção era a
complexidade dessas trajetórias: mulheres que falavam em nome da fé, da cura, da
família e da moral, mas que também ocupavam palcos, mídias, redes, espaços
públicos e arenas políticas, muitas vezes com mais eficácia do que atores
seculares.
Naquele momento, meu esforço foi deslocar a pergunta clássica; “por que
essas mulheres aderem?” para outra mais incômoda: como essas mulheres atuam?
Como constroem autoridade? Como performam liderança? Como produzem sentidos
públicos a partir da religião? Essa mudança de eixo, que hoje reconheço como
central na minha trajetória, já estava ali de forma embrionária. O trabalho de
campo, feito em shows, eventos públicos e celebrações religiosas, revelou algo
que se tornaria um fio condutor da minha pesquisa ao longo dos anos: a religião
como mediação da vida social e política, especialmente nas margens do Estado. Ao
observar eventos gospel promovidos ou apoiados pelo poder público, percebi que
não se tratava apenas de fé ou entretenimento, mas de verdadeiros rituais de
pacificação, ordenamento moral e produção de pertencimento coletivo. A religião
operava onde o Estado falhava (ou escolhia não operar) oferecendo sentido,
escuta, promessa e reconhecimento. Ao mesmo tempo, eu já me inquietava com os
limites de um feminismo universalizante para compreender essas experiências. Em
diálogo com teorias da performatividade e com leituras sobre feminismos não
ocidentais, especialmente o feminismo islâmico,
comecei a elaborar uma pergunta que ainda me acompanha: existem formas de
emancipação que não passam pela ruptura com a tradição, mas pela sua
reinterpretação?
Em 2015, essa pergunta não estava totalmente formulada, mas já
orientava minhas escolhas teóricas e empíricas. O que eu pesquisava naquele
momento, olhando hoje, não era apenas um ministério religioso ou uma cantora
gospel. Eu já pesquisava a disputa pela esfera pública. Pesquisava como gênero,
religião e política se entrelaçam na produção de autoridade feminina.
Pesquisava, ainda sem nomear assim, a fabricação de sujeitos públicos em
contextos religiosos, um tema que atravessaria toda a minha produção posterior.
Se naquela época o trabalho parecia excessivamente ambicioso, hoje entendo que
ele expressava menos uma falta de rigor e mais uma recusa precoce às explicações
simplificadoras. A monografia de 2015 não foi um ponto fora da curva, mas o
primeiro gesto de uma trajetória intelectual que segue insistindo na mesma
aposta: levar a sério mulheres conservadoras sem concordar com elas; compreender
práticas religiosas sem reduzi-las; e pensar a política para além dos seus
formatos clássicos. O que mudou desde então foi o refinamento teórico, a
maturidade metodológica, mas ainda falta a capacidade de escolher melhor os
recortes (rs!).
Permanece, com expressividade, uma pergunta fundamental: quem são
essas mulheres quando falam em público e o que o mundo social revela quando as
escutamos com atenção analítica?

