O mundo sob meus olhos

O mundo sob meus olhos
A racionalidade não é tão obvia, a realidade é variante... E as ações?! São reflexos dos indivíduos, uma loucura consciente do mundo social, que cada vez mais se torna fundamentada por métodos. E para viver, desejo encontrar estratégias eficazes para os desafios do processo no ordinário....

2.11.2026

O que eu pesquisava em 2015 (e por quê)

Estou numa etapa da construção da tese que me obriguei a revisitar meu trabalho de conclusão de curso da graduação. Dizem que é comum deixarmos de lado trabalhos imaturos, mas o que aprendi nessa viagem de volta ao tempo, é que vale a pena olharmos com atenção o que foi pensado e produzido com tanto esforço. Em 2015, ao concluir minha graduação em Ciências Sociais, eu investigava a atuação pública de mulheres evangélicas a partir de um caso específico: o ministério religioso e musical liderado por Fernanda Brum. À época, meu interesse não era evidente nem consensual dentro do campo acadêmico, tudo era muito intuitivo, bagunçado e bem alimentado pela orientadora que enxerava um possível rendimento. Mulheres evangélicas, música gospel, ação social e presença pública já apareciam com frequência, mas como objetos menores, moralizados ou tratados sob a chave da instrumentalização política e da falsa consciência.

Escolher esse tema significava, desde o início, habitar uma zona de desconforto analítico que precisava ser desbravado. Eu pesquisava mulheres religiosas porque já intuía que havia ali algo que escapava às explicações dominantes. Eu vim desse meio e necessitava de explicações mais honestas. A presença feminina no campo evangélico não me parecia apenas reprodutora de normas patriarcais, nem tampouco redutível a uma adesão acrítica ao conservadorismo. Havia mais ali, de onde eu vim vi florescer mulheres com dinamismos e manobras para fazerem suas escolhas, mesmo que limitadas, lideravam. Ouvi histórias reais de mulheres que com fé, sobreviveram e reiventaram modos para viver suas experiências ordinárias, sob o ideal da permanência e pertencimento em suas comunidades reigiosas. Quanto mais eu me inseria nesse tipo de perspectiva, mais questionava o reducionismo e o simplismo das avaliações que definiam esse campo. O que me chamava atenção era a complexidade dessas trajetórias: mulheres que falavam em nome da fé, da cura, da família e da moral, mas que também ocupavam palcos, mídias, redes, espaços públicos e arenas políticas, muitas vezes com mais eficácia do que atores seculares.

Naquele momento, meu esforço foi deslocar a pergunta clássica; “por que essas mulheres aderem?” para outra mais incômoda: como essas mulheres atuam? Como constroem autoridade? Como performam liderança? Como produzem sentidos públicos a partir da religião? Essa mudança de eixo, que hoje reconheço como central na minha trajetória, já estava ali de forma embrionária. O trabalho de campo, feito em shows, eventos públicos e celebrações religiosas, revelou algo que se tornaria um fio condutor da minha pesquisa ao longo dos anos: a religião como mediação da vida social e política, especialmente nas margens do Estado. Ao observar eventos gospel promovidos ou apoiados pelo poder público, percebi que não se tratava apenas de fé ou entretenimento, mas de verdadeiros rituais de pacificação, ordenamento moral e produção de pertencimento coletivo. A religião operava onde o Estado falhava (ou escolhia não operar) oferecendo sentido, escuta, promessa e reconhecimento. Ao mesmo tempo, eu já me inquietava com os limites de um feminismo universalizante para compreender essas experiências. Em diálogo com teorias da performatividade e com leituras sobre feminismos não ocidentais, especialmente o feminismo islâmico, comecei a elaborar uma pergunta que ainda me acompanha: existem formas de emancipação que não passam pela ruptura com a tradição, mas pela sua reinterpretação?

Em 2015, essa pergunta não estava totalmente formulada, mas já orientava minhas escolhas teóricas e empíricas. O que eu pesquisava naquele momento, olhando hoje, não era apenas um ministério religioso ou uma cantora gospel. Eu já pesquisava a disputa pela esfera pública. Pesquisava como gênero, religião e política se entrelaçam na produção de autoridade feminina. Pesquisava, ainda sem nomear assim, a fabricação de sujeitos públicos em contextos religiosos, um tema que atravessaria toda a minha produção posterior. Se naquela época o trabalho parecia excessivamente ambicioso, hoje entendo que ele expressava menos uma falta de rigor e mais uma recusa precoce às explicações simplificadoras. A monografia de 2015 não foi um ponto fora da curva, mas o primeiro gesto de uma trajetória intelectual que segue insistindo na mesma aposta: levar a sério mulheres conservadoras sem concordar com elas; compreender práticas religiosas sem reduzi-las; e pensar a política para além dos seus formatos clássicos. O que mudou desde então foi o refinamento teórico, a maturidade metodológica, mas ainda falta a capacidade de escolher melhor os recortes (rs!).
Permanece, com expressividade, uma pergunta fundamental: quem são essas mulheres quando falam em público e o que o mundo social revela quando as escutamos com atenção analítica?